
SÍNDROMA
“Síndroma" é um musical original que aborda temas universais inerentes à condição humana. Percorre diversas questões existenciais e promove uma série de questionamentos. Acompanhamos a busca incessante de Corina Gore por um sentido em sua vida que lhe traga algum conforto. Quanto mais procura, menos consegue encontrar. Tenta alcançar seu desejo no -nem tão distante- reino distópico de Síndroma. Com muitos momentos de humor, o texto estimula uma série de reflexões, como o lugar da autoaceitação, a compreensão da absoluta incompreensão, as escolhas que fazemos, deixamos de fazer, as escolhas que não temos e as que nos restam.
Palavras do dramaturgo e diretor:
Vivemos uma verdadeira epidemia pelo reino do desencanto. Ela avança alheia aos comportamentos maquiados e realidades maravilhosas irreais, forjadas e exibidas pelas redes sociais. Ela prevalece nas internas e imobiliza, aterroriza, espanca ou espanta, arremessando tantas questões para o campo da alienação. Um arremedo de caráter provisório que tende a ficar insustentável.
São numerosos aqueles escorados por remédios tarja preta, fundamentais pra que ainda alimentem a possibilidade de uma jornada sem panes constantes e tanta turbulência. Cada vez mais gente nesse clube. A ânsia por uma anunciada e propagada felicidade permanente e blindada, dada sua completa inviabilidade, gera, paradoxalmente, um abismo de insatisfação, angústia. E há uma pronunciada inépcia para lidar com a situação de maneira eficaz.
Meu trabalho sempre nasce da observação. Foi assim que surgiu a vontade de desenvolver um espetáculo que tratasse desse tema tão presente, importante, abrangente e inclusive, tido como “mal do século”. Essa frondosa árvore genealógica da depressão com suas ramificações. Transtornos, fobias, distúrbios. Como embalar e viabilizar comercialmente, atraindo patrocinadores, um produto que aborda temas tão espinhosos, delicados? Não faço a menor ideia, talvez devesse, mas claro que segui desenvolvendo, acreditando que em algum momento descobriria.
Muito me interessa chacoalhar, abordar sim cada aba desse universo tão presente, desfilando frequentemente sob um véu de hipocrisia.
Sem qualquer desejo ingênuo de apresentar ou tentar estabelecer verdades, respostas, soluções. Sem fazer qualquer apologia, tampouco desdenhar da crença alheia e de mazelas tão sérias. Pelo contrário. Falar com responsabilidade, respeito, consciência, mas abordar as angústias legítimas pela alma e pela cabeça de uma jovem que não encontra sentido em sua vida. Logo na primeira cena, temos Corina Gore buscando motivos pra não desistir e apertar logo o botão da “saída de emergência”. Percebemos que ela procura encontrar esses motivos em diversos territórios, relativizando inúmeras verdades convencionadas como intocáveis e incontestes. Se não bastam, não resolvem, precisam ser questionadas. É o que ela faz. Está em tratamento num ambiente angustiante ao lado de Jeremias, o cachorro atormentado que propõe e mergulha em uma série de reflexões necessárias que ela debate, mas que não passam de latidos incômodos para os demais e também com a Doutora Aletheia (a verdade), Sofia (a sabedoria) e Svetlana (a luz). Acaba escapando para o mundo de Síndroma e vamos com ela pra esse lugar. Faça uma boa viagem. Espero que seja profícuo. Será. Não desisto.
SYNDROME
“Syndrome” is an original musical that explores universal themes inherent to the human condition. It delves into existential questions and sparks a series of reflections. We follow Corina Gore’s relentless search for meaning in her life—something that might bring her a sense of comfort. Yet, the more she searches, the less she finds. She seeks fulfillment in the not-so-distant dystopian realm of Syndrome. With many moments of humor, the text encourages deep contemplation on themes such as self-acceptance, the understanding of absolute incomprehension, the choices we make, the ones we don’t, the ones we never had, and those we are left with.
Words from the Playwright and Director
We are living through a true epidemic in the kingdom of disillusionment. It spreads, indifferent to the polished behaviors and unreal, manufactured, and flaunted realities of social media. It prevails internally, immobilizing, terrifying, beating, or driving people away, casting so many questions into the realm of alienation—a makeshift, temporary fix that inevitably becomes unsustainable.
An increasing number of people rely on heavy-duty medication, essential for maintaining the possibility of a journey without constant breakdowns and turbulence. More and more are joining this club. The desperate pursuit of a permanent, impenetrable happiness—so widely advertised and glorified—proves, paradoxically, to be a bottomless pit of dissatisfaction and anguish. And there is a pronounced inability to handle this reality effectively.
My work always stems from observation. That’s how the desire to develop a show about this urgent, widespread, and significant issue—often referred to as the “illness of the century”—came to be. The vast genealogical tree of depression, with all its branches: disorders, phobias, disturbances. But how do you package and commercially sustain a product that tackles such thorny, delicate themes? How do you attract sponsors to something like this? I have no idea. Maybe I should. But, of course, I kept developing it, trusting that at some point, I’d figure it out.
What truly interests me is shaking things up, exposing every corner of this universe that so often parades under a veil of hypocrisy. Not with any naive intention of presenting or establishing truths, answers, or solutions. Not to glorify or dismiss anyone’s beliefs or downplay such serious afflictions. Quite the opposite. To speak with responsibility, respect, and awareness—while addressing the genuine anguish of a young woman who finds no meaning in her life.
In the very first scene, we find Corina Gore searching for reasons not to give up and press the “emergency exit” button. We watch as she explores different paths, questioning countless so-called untouchable and indisputable truths. If they are not enough, if they fail to bring answers, they must be questioned. And so she does.
She undergoes treatment in an unsettling environment, accompanied by Jeremias, a tormented dog who dives into a series of necessary reflections—ones she debates, yet to others, they are nothing but irritating barks. Alongside them are Doctor Aletheia (Truth), Sofia (Wisdom), and Svetlana (Light). Ultimately, Corina escapes into the world of Syndrome, and we follow her there.
Enjoy the journey. I hope it’s a fruitful one. It will be. I won’t give up.